terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
O interior de Duarte
Foi mesmo sem querer, acreditem, a minha passagem pela página do Facebook de Duarte Marques, jotinha ésse dê com assento no Parlamento. O rapaz lá tem as ideias dele, e no espaço dele publica, naturalmente, o que lhe apetece, mas não contive a vontade de partilhar este apontamento.
Sugere o rapaz que é de bom gosto viver no interior, «onde o ar é melhor, não há trânsito, as casas são mais baratas, boa comida e gente capaz para trabalhar com dedicação», e incentiva, é claro, a ideia patrocinada pelo governo de projectos de localizados nas regiões de «bom gosto».
«Aproveitem», entusiasma-se Duarte Marques, tão identificado com o interior do país que omitiu o que ele, com certeza, também sabe. No interior, não há escolas, hospitais, centros de saúde e muitos outros serviços públicos perto das pessoas como no litoral/grandes centros urbanos. A qualidade de vida é tão boa, mas tão boa que a juventude do interior migra, ou emigra - é mais esta opção, colocando a sua capacidade para «trabalhar com dedicação» ao serviço de exploradores de outros países, porque os deste país já não lhes garantem sequer essa miserável condição de explorados.
Depois, o que é isso de «gente capaz para trabalhar com dedicação»? Dedicação a quê ou a quem? Que modo tão sobranceiro é esse de observar a população onde há «gente» apresentada como criadagem disposta a fazer o que manda o senhor patrão, esfolando a pele de sol a sol pelo senhor patrão? E porquê do interior? Porque no interior há braços para trabalhar sem questionar? Porque no interior, nas "províncias", a habilidade das pessoas foi toda para as mãos e não colocam os problemas que a «gente» do litoral é capaz de colocar? No interior, as pessoas são mais obedientes do que no litoral?
E que sugestão é essa às pessoas para terem o bom gosto de se mudarem para o interior, sob o pretexto de uma vida menos austera, quando as pessoas, tanto no litoral como no interior, já não têm dinheiro para o pão, quanto mais para transferirem o seu quotidiano?
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
No evento PSD, falaram-lhe de astrologia...
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Estudar é preciso!
Há uma lógica evidente nas palavras de um Presidente da República
que apela aos jovens para não abandonarem a escola, nem perderem de vista a
importância dos estudos como pilar do futuro e desenvolvimento de uma nação.
Até aqui, tudo bem, mas é preciso observar como se alcança esse «fermento» num
país para lá de ferido pela ausência de saídas profissionais para um crescente
e monstruoso número de desempregados e se estende, igualmente, como um deserto
de oportunidades para quem conclui formação.
Os estudantes também andam a carregar a contestação neste país aos governantes. Queixam-se do custo do ensino e temem a conclusão dos estudos por saberem que, no final dessa meta, não têm o pódio da ocupação à espera. Oferecem-lhes bolsas de trabalho e outros estágios do género, garantem-lhes, no mínimo, a passagem ao patíbulo da agonia, ao ramo seco das profissões com vista para o desemprego, garantindo, antes da queda, mão-de-obra ao preço da chuva a quem, educadamente, nos parâmetros da tal democracia situacionista, lamenta os efeitos da crise e recebe, em troca, os benefícios e os elogios de um Estado que é preciso refundar para não viver acima das suas possibilidades.
Entretanto, aos milhares e milhares de desempregados deste país, sugere-se a aplicação do seu tempo em formações, independentemente dos conhecimentos já possuídos, para não ficarem para trás quando tudo isto mudar, um dia destes, não se pode prever muito bem porque, afinal, não estamos sozinhos e os comportamentos da Europa e dos mercados influenciam-nos muito, sobretudo quando o governo falha. Um desempregado deve encher-se de estudos para regressar mais capaz ao mercado de trabalho (nem que seja para fazer o mesmo que desempenhava antes da expulsão), pois, dessa forma, está a acautelar o bem para si e para o país. Não importa se o desempregado já nem sabe onde inventar dinheiro para pagar contas da habitação, da água, da luz, do gás, da comida, deve é ser optimista e colocar o seu esforço na obtenção de conhecimento (pagando, é claro) – enquanto estuda, talvez pense menos na miserável condição em que tombou.
É de mim, que posso ser burro, ou muito dificilmente, em Portugal, um estudante pode aspirar a
uma carreira profissional condigna com o esforço investido, intelectual e
financeiro, ao longo de vários anos de escola? A geração mais qualificada de
sempre está pelas ruas da amargura, protestando onde e como pode, contestada
por isso, porque utiliza linguagem indecorosa nas manifestações, desrespeitando
ministros com insultos, ou “calando-os”, como se os ministros não tivessem à
mão uma ou mais plataformas mediáticas para dizerem o que querem, sem
interferências. Nunca vi, por exemplo, um governante dirigir-se publicamente a alguém com a polícia
atenta às suas acções e declarações, pronta intervir sobre ele se passar das
marcas – e quantas vezes, nos seus discursos ziguezagueantes do agora vamos
recuperar/afinal vamos regredir não passam os governantes das marcas –, mas a
censura, é claro, só surge executada por quem, à força de protestos inundados
de desespero, “silencia” ministros.
A democracia é muito bonita quando nos estendem os boletins
de voto nas eleições. Depois, vem a prática dos eleitos, geralmente alérgicos a
dedos apontados aos seus narizes e olímpicos na capacidade de reacção: se não
forem eles próprios, alguém por eles há-de ir às televisões, às rádios ou aos
jornais levar a opinião "certa", a das "regras da democracia", onde, sim senhor,
o Povo pode manifestar-se, o Povo tem direito a isto e aquilo, mas educadamente,
sem agitar, sem a contundência da revolta, porque é preciso, em nome da suposta
democracia, não ultrapassar limites em constante mudança, porque os mesmos são
estabelecidos consoante as dimensões, a força e os protagonistas dos protestos.Os estudantes também andam a carregar a contestação neste país aos governantes. Queixam-se do custo do ensino e temem a conclusão dos estudos por saberem que, no final dessa meta, não têm o pódio da ocupação à espera. Oferecem-lhes bolsas de trabalho e outros estágios do género, garantem-lhes, no mínimo, a passagem ao patíbulo da agonia, ao ramo seco das profissões com vista para o desemprego, garantindo, antes da queda, mão-de-obra ao preço da chuva a quem, educadamente, nos parâmetros da tal democracia situacionista, lamenta os efeitos da crise e recebe, em troca, os benefícios e os elogios de um Estado que é preciso refundar para não viver acima das suas possibilidades.
Entretanto, aos milhares e milhares de desempregados deste país, sugere-se a aplicação do seu tempo em formações, independentemente dos conhecimentos já possuídos, para não ficarem para trás quando tudo isto mudar, um dia destes, não se pode prever muito bem porque, afinal, não estamos sozinhos e os comportamentos da Europa e dos mercados influenciam-nos muito, sobretudo quando o governo falha. Um desempregado deve encher-se de estudos para regressar mais capaz ao mercado de trabalho (nem que seja para fazer o mesmo que desempenhava antes da expulsão), pois, dessa forma, está a acautelar o bem para si e para o país. Não importa se o desempregado já nem sabe onde inventar dinheiro para pagar contas da habitação, da água, da luz, do gás, da comida, deve é ser optimista e colocar o seu esforço na obtenção de conhecimento (pagando, é claro) – enquanto estuda, talvez pense menos na miserável condição em que tombou.
Outra saída, sempre lamentável mas resultante dos tempos
difíceis que atravessamos, como dizem os governantes, é emigrar, e para isso,
não é menos conveniente estudar. Portanto, até para um engenheiro aceitar lavar
pratos num hotel qualquer de Londres, Paris ou É Longe Como o Caraças de Cima,
é importante obter o máximo de formação possível, para vencer na vida, ainda
que, por cá, a vida imposta o tenha obrigado a passar por dificuldades na escolaridade,
como os encarregados de educação não ganharem para livros e material escolar, ou
o facto de, fora das grandes urbanidades, as escolas não existirem ou terem
sido desactivadas perto da porta de casa, sem esquecer o estado de exploração a
que os professores são cada vez mais sujeitos… Enfim, pormenores com certeza
subversivos e mais condizentes com a realidade descrita por quem não gosta das
"regras da democracia" e não habita a escola das "jotinhas”, carregadinha do fermento com
que se vai cozinhando e se dão passos largos e seguros e se abrem portas para o desenvolvimento do país.
Etiquetas da Corporativa
Escola,
Pensamentos,
Vida
Parada a rimar com nada
Como dizer nada com muitas palavras? Observem o exemplo que encontrei numa declaração de António Parada, candidato do Partido Socialista à câmara municipal de Bouças (quero lá saber se alguém se crispa, recuso-me a escrever no meu blogue o nome daquela terrinha que fica na margem sul do Rio Leça) - o mesmo António Parada que, há tempos, e com poucas palavras, disse muito sobre o que pensa relativamente ao ensino obrigatório (até ele quase acreditou que disse, e disse mesmo, que só devia valer até aos 14 anos de idade), às bombas de gasolina, às portagens, etc...
Esta semana, Parada, ex-atleta do clube mais conhecido de Bouças, visitou o Leça F.C., inteirando-se, pois claro, do momento muito complicado que o emblema leceiro continua a atravessar. E disse isto, à Agência Lusa e de acordo com uma notícia com que esbarrei no site do Expresso, de onde extraí este pedacinho, assim mesmo, em copy/paste: «Nós sabemos que o clube atravessa graves dificuldades de cariz económico e nós vamos tentar perceber de que forma é que num futuro projeto nós podemos fazer um enquadramento, visando sobretudo minimizar aquilo que são as principais preocupações dessa coletividade».
É com descanso, portanto, que o Leça, sócios e adeptos do clube ficam a saber que "eles", sei lá quem, mas admito que os integrantes do PS, partido reinante no concelho há tantos anos que até já lhes perdi a conta, sabem das «graves dificuldades de cariz económico», que na realidade são financeiras, e estão determinados a «tentar perceber de que forma é que num futuro projecto» "eles" poderão fazer «um enquadramento, visando sobretudo minimizar aquilo que são as principais preocupações» do emblema.
Compreenderam? Muito bem, estamos conversados. Fiquem com o link da notícia, se a mesma vos interessar.
http://expresso.sapo.pt/antonio-parada-ps-quer-encontrar-solucoes-para-tornar-clubes-de-matosinhos-viaveis=f788322
Esta semana, Parada, ex-atleta do clube mais conhecido de Bouças, visitou o Leça F.C., inteirando-se, pois claro, do momento muito complicado que o emblema leceiro continua a atravessar. E disse isto, à Agência Lusa e de acordo com uma notícia com que esbarrei no site do Expresso, de onde extraí este pedacinho, assim mesmo, em copy/paste: «Nós sabemos que o clube atravessa graves dificuldades de cariz económico e nós vamos tentar perceber de que forma é que num futuro projeto nós podemos fazer um enquadramento, visando sobretudo minimizar aquilo que são as principais preocupações dessa coletividade».
É com descanso, portanto, que o Leça, sócios e adeptos do clube ficam a saber que "eles", sei lá quem, mas admito que os integrantes do PS, partido reinante no concelho há tantos anos que até já lhes perdi a conta, sabem das «graves dificuldades de cariz económico», que na realidade são financeiras, e estão determinados a «tentar perceber de que forma é que num futuro projecto» "eles" poderão fazer «um enquadramento, visando sobretudo minimizar aquilo que são as principais preocupações» do emblema.
Compreenderam? Muito bem, estamos conversados. Fiquem com o link da notícia, se a mesma vos interessar.
http://expresso.sapo.pt/antonio-parada-ps-quer-encontrar-solucoes-para-tornar-clubes-de-matosinhos-viaveis=f788322
Etiquetas da Corporativa
Bouças,
Leça da Palmeira,
Leça FC,
PS
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
A "bomba"
Vejamos: não veio propriamente mal nenhum ao mundo com a manifestação de ontem à noite, em Vila Nova de Gaia, durante a participação do ministro Miguel Relvas no Clube dos Pensadores, para o qual foi convidado a debater o «momento político» com uma plateia de cidadãos, mais ou menos anónimos, e aberta a qualquer um, não obstante a instalação do evento num espaço privado, como é uma sala de reuniões ou conferências de um hotel. E não veio mal nenhum ao mundo porque, efectivamente, quem protestou, disse o que tinha a dizer ao ministro e, por outro lado, o ministro teve a oportunidade de se defender, arranhando, primeiro, as cordas da sua própria garganta com uma incapacidade inata para cantar, depois, respondendo a questões rotuladas como «difíceis» e, ainda, afirmando à Comunicação Social que o desempenho das funções que lhe estão atribuídas obrigam a um estado de preparação para ocorrências do género.
Mesmo assim, Joaquim Jorge, fundador do Clube dos Pensadores e moderador do debate, reagiu em fúria aos manifestantes quando o protesto passou de mensagem cantada - Grândola Vila Morena - a palavras mais duras e frequentes nos tempos que correm, dirigidas a Relvas e, na pessoa do ministro, aos governantes deste país. «Gatuno» foi a expressão que fez rebentar a "bomba", os nervos contidos em Joaquim Jorge e que, se calhar, Joaquim Jorge vinha a acumular há muitos dias, talvez desde a hora em que Relvas aceitou o convite que lhe fora endereçado.
Relvas, muito naturalmente, disse que estava à espera do que aconteceu - e estava, a julgar até pela presença policial no hotel e nas imediações deste (nada de estranho, a polícia faz a vigilância dos governantes em qualquer circunstância) -, mas Joaquim Jorge também desconfiava ao que ia e apresentou-se ao «trabalho» consciente da volatilidade do debate que promoveu: no domingo passado, tanto na sua página pessoal no Facebook, como no blog do Clube dos Pensadores, foi publicado um texto elucidativo disso mesmo.
«Estamos sempre a criticar ( eu fui um deles) e não gostei quando o Governo com convites previamente seleccionados discutiu à porta fechada e sem presença de jornalistas a Reforma do Estado. Mas como criticamos devemos também aplaudir. Aqui estamos de forma livre, sem condições para que o Ministro explique o que o governo fez e vai fazer. Deste modo merece o meu aplauso. Não aceito que se aproveitem deste formato único do Clube em que cada um pode perguntar o que muito bem entender sem censura ou algo combinado previamente. Liberdade implica responsabilidade . Espero que haja elevação sem achincalhamento sem serem indelicados . Com isto não quero dizer que não haja contraditório , pontos de vista diferentes e perguntas difíceis. O unanimismo não faz parte do ADN do Clube, antes pelo contrário fomenta-se o debate de ideias. Mas fomenta-se também a educação e o respeito pelos outros, mesmo não estando de acordo», lê-se no referido texto, em jeito de projecção do debate com o ministro.
Joaquim Jorge é um cidadão como qualquer outro, abrigado pelos mesmos direitos conferidos a todos e motivado pelas suas convicções, que desconheço, mas que considero legítimas porque, na verdade, não somos, nem podemos, nem devemos, ser todos iguais, e chegados a este pressuposto, atingimos pilares da democracia, da bandeira hasteada por Joaquim Jorge quando tentou, inflamado, calar quem, motivado pelas suas convicções não menos legítimas, protestava contra Relvas e o governo.
No rebentar da fúria, Joaquim Jorge disse muitas coisas. Disse, por exemplo, que um episódio como aquele afastaria ministros de uma presença noutro evento do Clube dos Pensadores; pediu às câmaras de TV que virassem as costas ao mal (manifestantes) e focassem o bem (Joaquim Jorge); trovejou «cala-te» a quem foi demorando um pouco mais na sala a protestar com Relvas; fez uma poderosa demonstração de quem estava ofendido não propriamente com uma espécie de ataque a valores democráticos, mas sim à imagem que tudo aquilo iria dar ao seu Clube de Pensadores, com tantos jornalistas presentes e, obviamente, prontos a reportar o sucedido, como veio a acontecer.
Politicamente, não sei, e nada me interessa, onde se situam as convicções de Joaquim Jorge. A fúria com que reagiu aos manifestantes até poderá ter sido, ou não, espoletada por ideais políticos, mas a superlativa razão, parece-me, residirá num egocentrismo gritante de alguém que, com certeza democraticamente, antes do debate, concluia assim o texto atrás mencionado. «Se o fizerem estão a atacar não o convidado mas o Joaquim Jorge , o Clube e todo o trabalho que tenho feito em prol da cidadania e da participação cívica ao longo deste quase 7 anos».
Se o Clube dos Pensadores voltará a promover outro debate com um ministro deste governo, é uma incerteza. Primeiro, porque não se sabe até onde vai chegar este governo, se até 2015, como Relvas afirmou, ou se mais perto; segundo, porque, realmente, os ministros podem não querer passar pelo mesmo que passou Relvas, independentemente de se encontrarem preparados para tal; terceiro, o Clube dos Pensadores, revendo o que se passou, pode não querer convidar mais ministros. E por aí fora, porque a especulação abre margem a muitas e eventuais razões...
De volta a factos concretos, mais do que a manifestação, a imagem de Joaquim Jorge em ira absoluta ao lado de um Relvas aparentemente mais sereno esclareceu-me por completo. O senhor JJ não gostou que fossem ao evento dele «fazer barulho» e ficou preocupado com o futuro do seu Clube de Pensadores, nada de estranho, mas algo que também me faz espécie, porque esta não foi a primeira vez que um debate do Clube de Pensadores esteve envolvido por acontecimentos capazes de merecerem uma veemente condenação de Joaquim Jorge. Quando, em Outubro de 2011, Jerónimo de Sousa (PCP) foi o convidado do CdP, o debate iniciou-se com pelo menos 20 minutos de atraso, consequência de uma ameaça de bomba dirigida ao hotel onde teve lugar o debate.
«Não liguei muito, achei uma piada de mau gosto, mas os donos do hotel ligaram para a polícia, que entretanto chegou e está a verificar o que se passa», disse, então, Joaquim Jorge à Agência Lusa (ver notícia reproduzida pelo Diário de Notícias em http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2064056&seccao=Norte), sem que eu conheça registo de uma crispação do senhor JJ como a que se assistiu ontem à noite em Vila Nova de Gaia. Dessa vez, e como a polícia confirmou, não havia bomba na unidade hoteleira. Ontem, havia a "bomba" Joaquim Jorge.
Compreendo que Joaquim Jorge tenha defendido a brasa das suas sardinhas, que se tenha preocupado com a imagem do seu Clube dos Pensadores e o trabalho que afirma realizar em «prol da cidadania e da participação cívica». Não gostou do que se passou e passou-se, libertando o inferno de nervos que o consumia. Mas se em vez de fazer birra tivesse reagido à situação democraticamente, talvez não sublinhasse a força do protesto dos manifestantes com os seus berros e amuos, deixando essa função para Relvas, que (também) o fez, sobretudo daquela forma tão desconcertante como flagelou a Grândola Vila Morena.
Mesmo assim, Joaquim Jorge, fundador do Clube dos Pensadores e moderador do debate, reagiu em fúria aos manifestantes quando o protesto passou de mensagem cantada - Grândola Vila Morena - a palavras mais duras e frequentes nos tempos que correm, dirigidas a Relvas e, na pessoa do ministro, aos governantes deste país. «Gatuno» foi a expressão que fez rebentar a "bomba", os nervos contidos em Joaquim Jorge e que, se calhar, Joaquim Jorge vinha a acumular há muitos dias, talvez desde a hora em que Relvas aceitou o convite que lhe fora endereçado.
Relvas, muito naturalmente, disse que estava à espera do que aconteceu - e estava, a julgar até pela presença policial no hotel e nas imediações deste (nada de estranho, a polícia faz a vigilância dos governantes em qualquer circunstância) -, mas Joaquim Jorge também desconfiava ao que ia e apresentou-se ao «trabalho» consciente da volatilidade do debate que promoveu: no domingo passado, tanto na sua página pessoal no Facebook, como no blog do Clube dos Pensadores, foi publicado um texto elucidativo disso mesmo.
«Estamos sempre a criticar ( eu fui um deles) e não gostei quando o Governo com convites previamente seleccionados discutiu à porta fechada e sem presença de jornalistas a Reforma do Estado. Mas como criticamos devemos também aplaudir. Aqui estamos de forma livre, sem condições para que o Ministro explique o que o governo fez e vai fazer. Deste modo merece o meu aplauso. Não aceito que se aproveitem deste formato único do Clube em que cada um pode perguntar o que muito bem entender sem censura ou algo combinado previamente. Liberdade implica responsabilidade . Espero que haja elevação sem achincalhamento sem serem indelicados . Com isto não quero dizer que não haja contraditório , pontos de vista diferentes e perguntas difíceis. O unanimismo não faz parte do ADN do Clube, antes pelo contrário fomenta-se o debate de ideias. Mas fomenta-se também a educação e o respeito pelos outros, mesmo não estando de acordo», lê-se no referido texto, em jeito de projecção do debate com o ministro.
Joaquim Jorge é um cidadão como qualquer outro, abrigado pelos mesmos direitos conferidos a todos e motivado pelas suas convicções, que desconheço, mas que considero legítimas porque, na verdade, não somos, nem podemos, nem devemos, ser todos iguais, e chegados a este pressuposto, atingimos pilares da democracia, da bandeira hasteada por Joaquim Jorge quando tentou, inflamado, calar quem, motivado pelas suas convicções não menos legítimas, protestava contra Relvas e o governo.
No rebentar da fúria, Joaquim Jorge disse muitas coisas. Disse, por exemplo, que um episódio como aquele afastaria ministros de uma presença noutro evento do Clube dos Pensadores; pediu às câmaras de TV que virassem as costas ao mal (manifestantes) e focassem o bem (Joaquim Jorge); trovejou «cala-te» a quem foi demorando um pouco mais na sala a protestar com Relvas; fez uma poderosa demonstração de quem estava ofendido não propriamente com uma espécie de ataque a valores democráticos, mas sim à imagem que tudo aquilo iria dar ao seu Clube de Pensadores, com tantos jornalistas presentes e, obviamente, prontos a reportar o sucedido, como veio a acontecer.
Politicamente, não sei, e nada me interessa, onde se situam as convicções de Joaquim Jorge. A fúria com que reagiu aos manifestantes até poderá ter sido, ou não, espoletada por ideais políticos, mas a superlativa razão, parece-me, residirá num egocentrismo gritante de alguém que, com certeza democraticamente, antes do debate, concluia assim o texto atrás mencionado. «Se o fizerem estão a atacar não o convidado mas o Joaquim Jorge , o Clube e todo o trabalho que tenho feito em prol da cidadania e da participação cívica ao longo deste quase 7 anos».
Se o Clube dos Pensadores voltará a promover outro debate com um ministro deste governo, é uma incerteza. Primeiro, porque não se sabe até onde vai chegar este governo, se até 2015, como Relvas afirmou, ou se mais perto; segundo, porque, realmente, os ministros podem não querer passar pelo mesmo que passou Relvas, independentemente de se encontrarem preparados para tal; terceiro, o Clube dos Pensadores, revendo o que se passou, pode não querer convidar mais ministros. E por aí fora, porque a especulação abre margem a muitas e eventuais razões...
De volta a factos concretos, mais do que a manifestação, a imagem de Joaquim Jorge em ira absoluta ao lado de um Relvas aparentemente mais sereno esclareceu-me por completo. O senhor JJ não gostou que fossem ao evento dele «fazer barulho» e ficou preocupado com o futuro do seu Clube de Pensadores, nada de estranho, mas algo que também me faz espécie, porque esta não foi a primeira vez que um debate do Clube de Pensadores esteve envolvido por acontecimentos capazes de merecerem uma veemente condenação de Joaquim Jorge. Quando, em Outubro de 2011, Jerónimo de Sousa (PCP) foi o convidado do CdP, o debate iniciou-se com pelo menos 20 minutos de atraso, consequência de uma ameaça de bomba dirigida ao hotel onde teve lugar o debate.
«Não liguei muito, achei uma piada de mau gosto, mas os donos do hotel ligaram para a polícia, que entretanto chegou e está a verificar o que se passa», disse, então, Joaquim Jorge à Agência Lusa (ver notícia reproduzida pelo Diário de Notícias em http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2064056&seccao=Norte), sem que eu conheça registo de uma crispação do senhor JJ como a que se assistiu ontem à noite em Vila Nova de Gaia. Dessa vez, e como a polícia confirmou, não havia bomba na unidade hoteleira. Ontem, havia a "bomba" Joaquim Jorge.
Compreendo que Joaquim Jorge tenha defendido a brasa das suas sardinhas, que se tenha preocupado com a imagem do seu Clube dos Pensadores e o trabalho que afirma realizar em «prol da cidadania e da participação cívica». Não gostou do que se passou e passou-se, libertando o inferno de nervos que o consumia. Mas se em vez de fazer birra tivesse reagido à situação democraticamente, talvez não sublinhasse a força do protesto dos manifestantes com os seus berros e amuos, deixando essa função para Relvas, que (também) o fez, sobretudo daquela forma tão desconcertante como flagelou a Grândola Vila Morena.
Etiquetas da Corporativa
Luta,
Pensamentos,
Relvas,
Vida
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Vamos à Grândola!
Não sei com que idade aprendi a cantar a
Grândola Vila Morena, canção que trago na ponta da língua desde pequenino.
Aprendi-a como se fosse um hino nacional, e quando a ouço, recordo,
inevitavelmente, o meu pai, meu excelente professor para a vida, morto há já
uns anos largos numa cama de um hospital, clinicamente dado como incapaz de
resistir a uma insuficiência cardíaca e respiratória, tal como foi descrito à
família na certidão de óbito. A Grândola também é para mim uma máquina do
tempo, onde encontro sempre o meu pai e faço com ele espantosas viagens a dias
que, felizmente, não vivi, e a combates contra monstros enterrados para
aguardarem nova oportunidade de ressurgirem plenamente devoradores, trazidos de
volta por seguidores inteligentes, experientes na arte da manipulação das
consciências e, regra geral, das nossas vidas.
Com o meu pai (e a minha extraordinária mãe) aprendi a questionar tudo, a procurar interpretar o porquê das coisas, mesmo daquelas que me parecem correctas, e aprendi, então, significados da Grândola Vila Morena, a canção por estes dias regressada às ribaltas mediáticas, por culpa do protesto, amplamente noticiado e ocorrido na passada sexta-feira no Parlamento. De repente, a canção recuperou um bocadinho da sua força, galgou as margens do evocativo para inundar o terreno do motivador, alarmando (mais) o pensamento público para o estado em que nos encontramos, em Portugal e no resto do mundo, porque a Grândola tem essa dimensão universal de ser tão autêntica aqui como em qualquer outra latitude do globo.
Faz-nos sempre bem ouvir a Grândola Vila Morena, até para lamentar a incapacidade de, ao longo de quase 40 anos, não termos sido capazes de a interpretar como deve ser, para não termos de recorrer a ela outra vez como senha ou sinal de luta. Mas a culpa também é nossa, dos da minha geração e das gerações que nos estão na periferia: na generalidade, andámos todos entusiasmados a projectar futuros, absorvidos pela ilusória autoridade de gerirmos o nosso próprio destino, conduzido, na realidade, pelos competidores do campeonato mundial do cifrão e seus governantes.
Durante anos, cantámos a Grândola pelo menos uma vez por ano, ao chegar Abril para nos contar como foi em 1974, em celebrações sentidas e, também, em evocações acentuadamente hipócritas, porque não vejo os valores de um povo que mais ordena instalados nas políticas da alternância dominadora das últimas quatro décadas. Longe disso.
E daqui faço a ponte para os motivos deste desabafo - como foi possível o povo da Grândola esquecer os significados da canção? Como foi possível o povo da Grândola deixar-se levar pela ilusão do querer e “ter”? Agora, berra-se até aos impropérios contra quem nos rouba, canta-se Grândola Vila Morena para acordar outra vez, e até neste pormenor somos o que somos: obrigados a ir ao passado buscar hinos de luta porque não os temos com as nossas assinaturas, as mesmas que, por exemplo, pusemos em contrato de seguro, porque não sabíamos como seria o dia de amanhã e convém um gajo prevenir-se.
Estamos muito mal neste país, e continuamos sem saber como será o dia de amanhã, provavelmente, pior do que o dia de hoje, não sei, há que esperar… A culpa dos governantes e dos capitalistas anda aí, arremessada diariamente para o ar nas manifestações, nos protestos, nos desabafos - eu também a transporto, eu também não andei estes anos todos plenamente acordado, eu não estou, nem quero estar, acima de ninguém, mas lamento, e muito, mesmo, que não tenhamos sido capazes de travar à nascença o que está a acontecer.
Temos, enquanto povo, a nossa parte de responsabilidade no estado a que chegámos, e somos, todos juntos, a melhor resposta, a salvação do poço da morte em que estamos metidos. Já que não temos as nossas Grândolas, sejamos capazes de interpretar, desta vez, os significados da Grândola que José Afonso nos pôs nas nossas vidas, e aplicá-los a sério, para os monstros voltarem a ser enterrados, mas, agora, mortos e bem mortos.
Com o meu pai (e a minha extraordinária mãe) aprendi a questionar tudo, a procurar interpretar o porquê das coisas, mesmo daquelas que me parecem correctas, e aprendi, então, significados da Grândola Vila Morena, a canção por estes dias regressada às ribaltas mediáticas, por culpa do protesto, amplamente noticiado e ocorrido na passada sexta-feira no Parlamento. De repente, a canção recuperou um bocadinho da sua força, galgou as margens do evocativo para inundar o terreno do motivador, alarmando (mais) o pensamento público para o estado em que nos encontramos, em Portugal e no resto do mundo, porque a Grândola tem essa dimensão universal de ser tão autêntica aqui como em qualquer outra latitude do globo.
Faz-nos sempre bem ouvir a Grândola Vila Morena, até para lamentar a incapacidade de, ao longo de quase 40 anos, não termos sido capazes de a interpretar como deve ser, para não termos de recorrer a ela outra vez como senha ou sinal de luta. Mas a culpa também é nossa, dos da minha geração e das gerações que nos estão na periferia: na generalidade, andámos todos entusiasmados a projectar futuros, absorvidos pela ilusória autoridade de gerirmos o nosso próprio destino, conduzido, na realidade, pelos competidores do campeonato mundial do cifrão e seus governantes.
Durante anos, cantámos a Grândola pelo menos uma vez por ano, ao chegar Abril para nos contar como foi em 1974, em celebrações sentidas e, também, em evocações acentuadamente hipócritas, porque não vejo os valores de um povo que mais ordena instalados nas políticas da alternância dominadora das últimas quatro décadas. Longe disso.
E daqui faço a ponte para os motivos deste desabafo - como foi possível o povo da Grândola esquecer os significados da canção? Como foi possível o povo da Grândola deixar-se levar pela ilusão do querer e “ter”? Agora, berra-se até aos impropérios contra quem nos rouba, canta-se Grândola Vila Morena para acordar outra vez, e até neste pormenor somos o que somos: obrigados a ir ao passado buscar hinos de luta porque não os temos com as nossas assinaturas, as mesmas que, por exemplo, pusemos em contrato de seguro, porque não sabíamos como seria o dia de amanhã e convém um gajo prevenir-se.
Estamos muito mal neste país, e continuamos sem saber como será o dia de amanhã, provavelmente, pior do que o dia de hoje, não sei, há que esperar… A culpa dos governantes e dos capitalistas anda aí, arremessada diariamente para o ar nas manifestações, nos protestos, nos desabafos - eu também a transporto, eu também não andei estes anos todos plenamente acordado, eu não estou, nem quero estar, acima de ninguém, mas lamento, e muito, mesmo, que não tenhamos sido capazes de travar à nascença o que está a acontecer.
Temos, enquanto povo, a nossa parte de responsabilidade no estado a que chegámos, e somos, todos juntos, a melhor resposta, a salvação do poço da morte em que estamos metidos. Já que não temos as nossas Grândolas, sejamos capazes de interpretar, desta vez, os significados da Grândola que José Afonso nos pôs nas nossas vidas, e aplicá-los a sério, para os monstros voltarem a ser enterrados, mas, agora, mortos e bem mortos.
Etiquetas da Corporativa
José Afonso,
Luta,
Vida
Dar à tecla
Mais uma volta, mais uma viagem, eis a tentativa de relançar este blog que, até ver, e basicamente, serviu de muito pouco. Do que está para trás, digo apenas que se trata de uma pequena acumulação de insónias, minhas e de um grande amigo. Do que vem por aí, não faço a mínima ideia, veremos no que isto vai dar, dependendo, naturalmente, da minha vontade de teclar e de partilhar este ou aquele pensamento, devaneio e afins sobre este ou aquele assunto. Assim, siga o baile e muito obrigado aos que por cá passaram, passam ou vão passar.
Subscrever:
Mensagens (Atom)